terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

O Trote não Brincadeira! Combate ao trote opressor!


O Trote não é Brincadeira!
O combate ao Trote Opressor!


Nosso blog hoje vai dedicar-se a um tema polêmico nas universidades brasileiras: o trote tradicional. Decidi por esse tema hoje pq ontem tive acesso à notícia sobre a possível votação do projeto que transforma o trote em crime e também pq no Canal Brasil passou um filme sobre a violência do trote tradicional em São Paulo em 1974. Vejam bem, fazem mais de 30 anos que são produzidas obras e críticas ao trote tradicional e ainda morrem pessoas por causa dele. E ainda muitas outras são feridas com essa prática...

Tenho que confessar que já fui a favor do trote. Isso foi num período em que negava muito da política e achava tudo uma simples brincadeira. Ao começar estudar mais a fundo as opressões e mesmo os ritos de passagem percebi que essa prática ia contra os ideais libertários e igualitários que defendia. Uma importante obra que me fez percebe isso foi “A Violência no Escárnio do Trote Tradicional”, de Paulo Denisar Vasconcelos(que hoje é professor de filosofia da Universidade Federal de Alfenas).

Boa parte da minha argumentação aqui é baseada no livro dele e que vale a pena ser lida.

O trote é um rito de passagem e deve cumprir a função integradora do calouro à vida universitária. É momento em que ele é inserido em uma nova realidade e de novas práticas de vida e estudos. O atual trote faz justamente o papel contrário. Ao invés de inseri-lo com a racionalidade da universidade, com a idéia de uma função social da universidade e mesmo de que a universidade é um lugar de produção de novas práticas para um mundo melhor o calouro é submetido a uma prática autoritária, opressora, bárbara e irracional... Diversos valores que a existência da universidade no mundo tentou combater.

Fato interessante é o notado pelo Paulo Denisar durante a ditadura militar. Ele constata que com a decretação do AI-5 e a perseguição ao movimento estudantil a universidade caminhou para a despolitização. Neste momento a prática do trote opressor ampliou-se. Outro estudo interessante, feito por outro autor, é sobre a divisão territorial da universidade, na qual os cursos ditos mais importantes tem espaços privilegiados no território da universidade. Uma demonstração disso é que os primeiros prédios a se isolarem numa universidade são medicina, engenharia e direito. E também são exatamente nesses onde o trote é mais comum e cruel. Isso pq pra estar naquele lugar super privilegiado e exclusivo é preciso sofrer ainda mais...

Alguns tentam legitimar o trote opressor como uma brincadeira, na qual as fatalidades seriam meros acidentes. Esquecem que toda brincadeira é referenciada numa realidade social, ou seja, uma brincadeira opressora e vexatória como essa só reforça valores e a reprodução de uma realidade social a ser combatida. Não podemos aceitar que uma brincadeira que um ser humano seja o brinquedo do outro e que a alegria dela seja o vexame do outro. Sendo assim, não temos como legitimar a opressão e sim combate-la. Por isso, o rito de passagem deve ter outro caráter...

Fora que essa prática gera uma situação irracional de continuidade. Pois o calouro colocado em condições de oprimido e renunciando á sua dignidade e sua liberdade se considera um ser inferior e deseja ser superior. Por essa lógica ser superior é torna-se opressor, um veterano. Pra combater essa lógica é preciso que os calouros se reconheçam como gente igual ao veterano. Pois na verdade é este veterano que pratica o trote que é inferior e carente de humanidade. Esse trabalho deve ser feito desde o ensino médio, pois o combate ao trote só terá sucesso quando mudarmos a racionalidade de quem entra na universidade e não simplesmente com a lógica punitiva de quem comete. Isso pq ele é legitimado pela sociedade e só a auto-organização e conscientização dos oprimidos que conseguiremos inverter esse jogo.

Portanto, em vez de promover a barbárie temos que promover a conscientização dos ingressantes. Além de estarmos combatendo uma prática opressora estaremos mudando a racionalidade interna dentro da universidade permitindo que possamos mudar a cara e o jeito da universidade pensar. Inserir os calouros de uma maneira transformadora é investir num futuro de uma outra universidade. Esses chegam abertos a uma nova realidade, mas o que encontram hoje é uma velha realidade da opressão que eles já conhecem. Enfim, pra mudar a cultura política e criar uma verdade vida universitária é preciso abolir o trote tradicional através de práticas alternativas de recepção e conscientização dos calouros da sua importância e igualdade perante seus veteranos.

Um comentário:

Ronaldo disse...

Grande Pops,

Parabens por abortar o tema dos trotes violentos depois da série de absurdos promovidos na Universidade Brasileira durante a semana passada. Ainda cabe ressaltar que a concepção da unica forma de acesso a Universidade, o vestibular, reforça a disputa e desconstrói o conceito de Universidade socialmente referenciada.