quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Homenagem a minha Mãe!




Hoje será um dia de homenagem. Farei uma homenagem a minha mãe, grande guerreira Ângela Barbosa.

Infelizmente ele faleceu em setembro de 2007 e pra algumas pessoas, inclusive eu, bem de repente, pois ela guardou pra si e pra um círculo estreiro de amigos seu câncer no fígado.

Uma mulher guerreira, batalhadora, insistente, carinhosa, bondosa e bohemia! Não tenho palavras para descrevê-la completamente...

Dizia que criou filho pro mundo e não pra barra da saia dela. Com 16 anos fui morar sozinho! Hoje acho isso magnífico, mas já achei mais. Pq se me ensinou muita coisa na vida, roubou bons tempos que poderia ter vivido ao seu lado. Quando entrei na UNE em 2003 o convivência ao vivo ficou mais escassa ainda. Mas admiração por ela só foi aumentando.

Podemos dizer que fez um virada na sua vida pessoal, junto com o fim do século XX. Podemos dizer que a Ângela renasceu ou mesmo que apareceram várias faces repreendidas da Ângela. Boa parte disso não pude viver e outra grande parte só fui descobrir depois de seu falecimento.

Arquiteta de formação, sempre trabalhou com planejamento urbano, uma urbanista. Essa face todos conhecem bem. Mas foi aparecendo mais a face poética dela e fiquei impressonado com a quantidade de poemas que ela produziu nesses anos. Sonho um dia publicar um livro.

Bem, nossa homenagem é com a publicação de um de seus poemas. Sobre a vida, sobre as nossas memórias e també, sobre Goiânia, cidade que ela escolheu pra ser sua. Cidade que nasci e durante muito tempo fugi e aindo fujo, ainda não sei bem pq... Mas uma cidade que quanto mais eu fujo, mais ela puxa meu pé! Estou ligado em Goiânia para sempre... Lá está boa parte da minha história, lá está minha mãe, assim como minha irmã que não conheci, meus avós, meu pai e quase toda minha família. Ao contrário da minha mãe, não tive escolha... Mas não fico triste com isso, preciso saber viver isso!

Esse poema ainda tem muito haver com o momento de passagem da minha vida, de recordação dos vividos e abertura dos guardados. Cada dia mais minha vida não será com antes e nem poderá ser. Mas sem dúvida ficam os guardados...



Os Guardados da Cidade
Ângela Barbosa

Só vivemos porque dividimos guardados.
Assim ficamos todos poetas, arquitetos, dançarinos, professores...
De nossos guardados.

Guardados do:
Chão que pisamos,
Do ar que respiramos,
Das coberturas que dividamos,
De que percorremos com o olhar, juntos,
Dos espaços de vida que ocupamos
Lembranças e relembranças de nós...

Arquitetos e poetas de vida

Comungando a descoberta de que tudo não é mais que um
GUARDADO
Não importa a forma como os expressamos!...
Assim és... arquiteto do sentimento da cidade
O melhor desse sentimento
Ontem... como urbanista, percorri a cidade!!!
O fazia como poeta!
Fui-me buscar em minha cidade
Fui percorrer meus guardados caminhos de vida
Meus meandros de tempos no tempo de minha cidade
Fui buscar

1- Telhados que dessem guarida a todos os mendigos
(assentamento do Jardim Primavera dos sem teto, que implantamos)
2- Fui olhar a padaria do pão de cada dia de minha história
(praça do avião, meu primeiro morar em Goiânia)
3- Atravessar os bosques querendo encontrá-los encantados para encontrar a flauta que encantam nossas borboletas, mesmo as mais inexistentes (bosque do zoológico)
4- Percorrer os becos da lucidez dos bêbados
(beco do Armando, rua 7 antigo ponto de estudantes, antigo DCE da Federal)
5- Maravilhar-me com pássaros, pois eles são os mais sábios poetas
(os pássaros que cantam todos os dias no amanhecer de minha casa)
6- Despedir-me do inferno, no desejo de encontra-me na aurora dos velhos amores, de um tempo passado, na história da praça universitária
(o mais bonito nascer e morrer do sol de Goiânia)
7- Caminhar no jaz do passo que não caminhei
(nos cemitérios onde minha filha está enterrada e onde meus pais estão enterrados)
Perplexa! De estar na encruzilhada da paixão e saudosa dos entes
Queridos...
Sai sem destino...
Nessa cidade que vivo,
Que discuto
Que projeto
Que discurso
Que planejo
Que ocupo terras
Que tive várias moradas
Que tive grandes amarguras
Que comemorei várias vitórias
Sonhei
Desejei
Amei
Vivi
História de mim...

Guardados de minha memória
Fui percorrendo cada canto, cada lugar, saboreava cada passo
Do chão que pisava
Acariciava cada folha seca nas lembranças de meu passado
Recolhia cada pedrinha que algum dia pudesse ter estado em meus sapatos
Olhava cada janela aberta que se abria
Para entrada do sol dos desejos de cada ser

Caminhava lenta e percorria o redor de cada espaço
Vivido... vivendo...

Ouvi alguns sons do passado
Retornei na viagem do tempo

Resgatei algumas imagens:
De vidas com os amigos
De um casamento
Da morte da minha filha
Do nascimento do meu filho
De um meio casamento
De uma vida de trabalho
De uma vida política
Da trajetória de cada passo dado
Cada lugar guardado. Cada dia

De cada momento que tive e que não tive
E suspirava...

Só que a cidade que pisava hoje no urbano, não é a mesma cidade
Tive saudades
E desejei ser uma bruxa para encantá-la.

3 comentários:

Anônimo disse...

Dramael!!!!!!
LINDO LINDO !!!

BJs!!

CArla

Vitor disse...

Grande Eterna Tia Ângela!
Maravilhosas recordações!
Abraços!

Uma mulher de palavra - sem dono! disse...

Que MARA essas palavras da sua mãe, Pops... Uma pena não ter podido conhecê-la.

Beijo enorme