quinta-feira, 4 de junho de 2009

SOBRE ESPONTANEISMO E VOLUNTARISMO

Caros e Caras,

Trago pro blog dois textos do Wladimir Pomar sobre um tema tão importante pra luta social. Na minha opinião é um debate que pouco se faz hoje e de grande importância. Vivemos um momento de refluxo dos movimentos sociais e de crise econômica que tentam fazer com que os trabalhadores paguem pela crise.

Debater hoje o espontaneismo e o voluntarismo é demasiadamente importante. Por isso, esse dois texto trazem uma visão muita saudável desse debate e ajuda a esquerda a pensar sua prática política.

Enfim, recomendo e muito a leitura.

Fui!



SOBRE ESPONTANEISMO E VOLUNTARISMO
A dinâmica de aprendizado das massas

Escrito por Wladimir Pomar 27-Mai-2009

Consideramos massas os conjuntos de trabalhadores e elementos populares que convivem numa determinada coletividade. Em outras palavras, não consideramos as massas populares ou trabalhadoras um conjunto uniforme, mesmo que pertencentes à mesma classe ou segmento social.

Portanto, sua dinâmica de aprendizado é dispersa e diferenciada, em virtude de suas próprias condições de trabalho e de vida. Além disso, disperso e diferenciado é também seu conhecimento sobre a realidade econômica, social, cultural e política, na qual essas massas estão inseridas. Afora o fato de possuírem baixa instrução escolar, elas são ainda bombardeadas intensamente por informações que, em geral, procuram mistificar e embaralhar a realidade.

Nessas condições, a escola de aprendizado das massas, onde quer que estejam, num chão de fábrica, numa vila rural, ou em qualquer outro tipo de coletividade, só pode ser a prática da luta, seja pela sobrevivência, seja pela conquista de direitos. É na luta que elas descobrem seus próprios problemas, ou os aspectos negativos de sua existência. É na luta que elas começam negando aqueles aspectos negativos, como passo necessário para aprender a apresentar propostas positivas.

É na luta de negação dos aspectos negativos de sua vida, seja a pouca comida do dia-a-dia, o pouco teto para se proteger, a pouca ou nenhuma terra para plantar, o baixo salário para fazer frente aos custos da vida etc. etc., que as massas apreendem a realidade. Mesmo que essa apreensão ainda seja parcial, e um início de busca de soluções, essa é sua dinâmica "normal" de aprendizado.

Por outro lado, a realidade está em constante mutação. Ela é histórica e nada tem de linear. Às vezes, produz fatos e aspectos negativos que fogem daquela "normalidade", rompem com a dinâmica "normal" e obrigam as massas a negações mais radicais. Crises econômicas e sociais, guerras, conflitos políticos etc. são aspectos de grande tensão na realidade. Mudam a vida das massas de forma ainda mais brutal, obrigando-as a buscar soluções impensáveis em tempos "normais".

Os voluntaristas, em geral, desprezam a dinâmica "normal". Acham que podem chegar, qualquer que seja o momento, e propor soluções próprias para momentos de grande tensão, acreditando que as massas os seguirão, dependendo apenas de capacidade de convencimento. Recusam-se a partir do nível real de aprendizado delas, e da realidade "normal", participando do processo real, às vezes lento, de luta e descoberta de problemas e soluções.

Com isso, frustram-se ao tentar impor uma dinâmica que nada tem a ver com a realidade, e para a qual as massas ainda não amadureceram. Culpam aos que procuram adaptar-se à dinâmica "normal", pela suposta inação das massas. E isolam-se, não raro descambando para o oposto do que propunham antes. Assim, quando os momentos de grande tensão se apresentam, não possuem elos de contato com as massas, que lhes permitam influenciar os acontecimentos.

Já os espontaneístas se subordinam totalmente à dinâmica "normal". Não vislumbram a possibilidade de saltos, nas descobertas das massas, quanto aos aspectos negativos da realidade, nem na criação de negações que correspondam a essas novas descobertas. Não se preparam para as grandes tensões e, quando estas se apresentam, são atropelados pelos acontecimentos.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.


Ainda a dinâmica de aprendizado das massas
Escrito por Wladimir Pomar

02-Jun-2009

Para escapar do voluntarismo e do espontaneísmo, em primeiro lugar é necessário que os líderes e militantes dos partidos populares participem ativamente da dinâmica de aprendizado "normal" das massas. Como diziam alguns clássicos da "escola política do trabalho de massas", nesse processo é preciso "quase fundir-se" com as massas populares, de tal modo que elas reconheçam tais líderes e militantes como "companheiros de luta".

Embora só a prática leve as massas a comprovar que os aspectos negativos da realidade, decisivos em seu modo de trabalho e de vida, estão relacionados com o predomínio do capitalismo, isso não exclui que líderes e militantes populares realizem um constante trabalho de esclarecimento e organização. E que, para não ficar apenas no negativismo, reiterem sempre que "um outro mundo é possível", como solução para os problemas existentes.

Mas não vamos pensar que esse trabalho faça com que as massas "ganhem consciência" sobre democracia popular, socialismo ou o que quer que tenha sido apresentado como solução positiva. Quando elas forem à luta, elas irão para negar, liquidar ou extinguir os aspectos negativos da sua realidade. E, para ser realista, mesmo que tenham transformado uma dessas propostas em sua bandeira, elas terão pouca ou nenhuma idéia do seu significado ou conteúdo.

Por outro lado, quando as grandes tensões se apresentarem, as massas tenderão a reconhecer os líderes e militantes que, além de participarem de sua dinâmica "normal", também se tornaram referência na apresentação de soluções para tais tensões, e estarão mais propensas a segui-los.

Se examinarmos todas as experiências socialistas, vamos ver que a dinâmica "normal" de aprendizado das massas retornou após a realização das revoluções políticas e sociais. Seu nível real de consciência recolocou na ordem do dia a continuidade de um trabalho ativo de "quase fundir-se" com as massas e, portanto, a disputa contra o voluntarismo e o espontaneísmo.

Em sua dinâmica de aprendizado "normal", as massas têm sido capazes de mudar as políticas estabelecidas por líderes, partidos e governos populares no período revolucionário. Em alguns casos, extremaram suas tendências de igualitarismo por baixo. Em outros, resgataram formas de propriedade e de produção que lhes impuseram um desenvolvimento econômico e social desigual.

Ou seja, tanto impuseram avanços estratégicos, sem base material consistente para sua sustentação, quanto obrigaram a retiradas estratégicas, mesmo colocando em risco as conquistas principais. Portanto, a questão da dinâmica de aprendizado das massas populares, seja a "normal", seja a das "tensões", não é secundária, nem restrita a alguns momentos da história.

Ela é persistente. Deve estar presente enquanto o nível educacional e cultural das massas permanecer como componente da realidade de desigualdades econômicas, sociais e políticas. Quem não entender isso vai continuar tentando fazer o "assalto aos céus" sozinho.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.